sábado, 18 de junho de 2011

Entre espátulas

     Faço plantão toda terça–feira à noite, carinhosamente minhas terças insanas. Certa madrugada, o tempo demorava a passar e me peguei brincando com as espátulas. Sigo pensando em vários usos para espátulas. Servem para imobilizar um dedo quebrado, ou criar uma partida de vôlei com dois palitos e uma luva de procedimento como bola ou até mesmo criar uma gaita (ação mais complexa que envolve o uso de elásticos- paro por aqui minhas atividades lúdicas - não pagaria o mico de tocar gaita em pleno plantão).
   Animada, passei a infernizar a equipe com um quebra cabeças feito com os abaixadores de língua. A imagem A representa o número cinco. Seguindo a mesma lógica que número a imagem seguinte representa?
Dica – aqueles familiarizados com a lógica dos algarismos romanos: esse conhecimento não vai ajudar. A resposta fica mais fácil quando nos deixamos ver as imagens por uma perspectiva diferente daquela que nos é usual.
    Continuando com os devaneios. O que passa pela cabeça de um menino de um ano quando coloco uma espátula a sua frente (claro que antes do exame da orofaringe).
   Winnnicot em "The Observation of Infants in a Set Situation" (1941) descreveu as reações de bebês de 5 a 13 meses ao serem apresentados a uma espátula brilhante. Ele recebia o bebê com sua mãe, colocava uma espátula na mesa, de modo que ela ficasse entre ele, o bebê e sua mãe. Fazia-a vibrar, e aguardava o gesto da criança. Winnicott observou que, com diferentes crianças, um determinado perfil de comportamento ocorria frente à espátula, naquela situação.
   No primeiro momento, denominado por ele de "período de hesitação", observou que o bebê apesar de parecer estar interessado na espátula, não a tocava e nem a apanhava. O momento era de expectativa e imobilidade.
   Em um segundo momento, se a criança não era interrompida por Winnicott ou por sua mãe, a hesitação era superada. O bebê, então, apropriava-se da espátula e realizava algum tipo de jogo com ela; Percebia que a espátula estava a sua disposição e podia, por exemplo, colocá-la na boca ou mastigá-la. Logo após, a criança desinteressava-se por este objeto e iniciava um jogo em que se livrava da espátula, para em seguida recuperá-la.
   Segundo Winnicott, a experiência completa dava ao bebê o que ele denominou de lição de objeto. Desse modo, o fato de a criança querer, tomar e apropriar-se da espátula sem alterar o meio ambiente imediato situava-a de maneira distinta em seu sentido de self. Havia ocorrido uma experiência que a tinha transformado.
   Esse fenômeno sempre se repetia com diferentes bebês, a não ser que a criança tivesse algum tipo de inibição; neste caso, o período de hesitação era mais longo e era acompanhado de angústias. Winnicott tratava essas crianças aguardando o desenrolar do período de hesitação, até o momento em que o bebê apropriava-se da espátula, o que levava à superação da inibição. O bebê tinha a oportunidade de criar o mundo e a si mesmo.

Para terminar música....

Um brinquedo (Toquinho)

O que é um brinquedo?
Duas ou três partes de plástico, de lata...
Uma matéria fria
Sem alegria
Sem história...

Mas não é isso, não é filho!
Porque você lhe dá vida
Você faz ele voar, viajar...
Solução do problema: 

Apego, afeto e desenvolvimento cerebral direito

   A conexão entre as ciências básicas e a clínica está se estreitando. As pesquisas em neuroimagem de condições psiquiátricas e funções psicológicas têm gerado modelos complexos das operações normais e patológicas da mente humana. Observamos uma explosão de pesquisas que integram os estudos neurobiológicos do desenvolvimento cerebral com estudos psicológicos do desenvolvimento emocional, social e cognitivo.
   Sem esquecer-se do papel que os fatores genéticos realizam está claro que os genes não determinam em absoluto o comportamento. Fatores pré-natais e pós-natais têm papel crítico na origem do desenvolvimento. O ambiente social em particular aquele criado pela díade mãe - bebê, afeta diretamente as interações gene - ambiente e por isso tem efeitos duradouros.
   Os novos modelos interdisciplinares descrevem os mecanismos pelos quais a “mother nature meets mother nurture” O potencial natural só é atingido se facilitado pela maternagem.
   Em paralelo com os avanços na psicologia do desenvolvimento, a teoria do apego proposta por Bowlby merece ser descrita. Bowlby descreve um sistema de apego, um mecanismo comum a seres humanos e animais localizado em específicas áreas do cérebro. Estudos interdisciplinares com interface na neurociência têm descrito modelos atualizados da teoria do apego que enfatizam tanto funções sociais, emocionais e estruturas neurobiológicas.
   As descobertas da última década sustentam a idéia que um maior conhecimento do desenvolvimento será decorrente de um maior entendimento do funcionamento das operações de auto-organização cerebral, principalmente durante o período mais acelerado de crescimento cerebral, que se inicia no último trimestre de gestação e continua até os 18-24 meses de idade.
   O processo de mielinização inicia-se em regiões posteriores e tem direção posterior para anterior e inferior para superior sendo que sua maturação ocorre por volta dos três anos.
Neurocientistas tem descrito que o crescimento acelerado das estruturas cerebrais e a mielinização são dependentes da experiência e influenciados por forças sociais. A auto-organização cerebral ocorre no contexto relacional com outro cérebro, um outro self.
Além disso, o cérebro é na verdade um sistema de dois hemisférios: direito e esquerdo com diferentes estruturas e propriedades funcionais. De particular interesse, é a maturação do hemisfério cerebral direito, que inicia sua mielinização antes do cérebro esquerdo verbal e torna-se dominante nos primeiros três anos de vida. Esse crescimento não é codificado totalmente pelo genoma, também é moldado pelas comunicações emocionais. O hemisfério direito é dominante em relação às emoções e ao eu corporal.
   O desenvolvimento cérebro-mente-corpo, o origem do self é reflexo do desenvolvimento do hemisfério direito e suas funções.
   Uma tendência nas ciências que estudam o desenvolvimento é o desvio do enfoque do cognitivo para a emoção. Pesquisas sugerem que a realização de laços emocionais na comunicação e a maturação do afeto representam eventos chaves da infância mais do o desenvolvimento de funções cognitivas complexas.
   As relações de apego e afeto são essenciais porque facilitam o desenvolvimento de mecanismos auto-regulatórios cerebrais. O apego pode ser definido como a regulação diádica da emoção; a obtenção da auto-regulação do afeto é uma aquisição importante do desenvolvimento e representa uma melhora no processo de auto-regulação.
   O objetivo primário do bebê durante o seu primeiro ano de vida é a criação de laços de comunicação emocional com seu cuidador e o desenvolvimento da auto-regulação. Do nascimento em diante, o bebê usa suas capacidades de enfrentamento em expansão para interagir com o ambiente social. Nas suas experiências iniciais, os bebês usam as suas capacidades motoras em maturação e as capacidades sensórias em desenvolvimento (em especial o odor, gustação e tato) para interagir com o ambiente.
   Ao redor dos dois meses, existe uma dramática progressão das capacidades sociais e emocionais. Em episódios de troca mútua de olhares, a mãe e a criança realizam uma comunicação facial, vocal e gestual inconsciente e espontânea. Na relação emocional face a face, a mãe se faz contingente, previsível e manipulável. Os episódios de sincronia de afetos ocorrem nas primeiras expressões de um brincar social e geram excitação e contentamento. Nessa interação, estabelece-se uma sincronia em que mãe e filho aprendem o ritmo do outro e adaptam-se a esse ritmo.
   A sintonia da mãe e o apego seguro não apenas minimizam os estados negativos do bebê através de transições confortantes, mas também maximizam os afetos positivos através de um brincar interativo. A regulação das interações afetivas com a mãe cria um senso de segurança e curiosidade que alimentam a exploração do mundo. Essa habilidade é marca de saúde mental.
   Os olhares coordenados, as vocalizações, o tato e os gestos corporais servem de canais de comunicação que produzem efeitos emocionais instantâneos: sentimentos positivos construídos no campo intersubjetivo pela díade. Quais partes do cérebro são afetadas por esses canais de comunicação?
   Estudos de neuroimagem demonstram que massa cerebral aumenta rapidamente durante os primeiros dois anos de vida.Por toda a vida, o hemisfério direito que recebeu seu imprinting e se organizou nas experiências relacionais do início da vida atua como dominante para a recepção, expressão, comunicação e regulação das emoções, funções essências na criação e manutenção dos relacionamentos. Estudos sugerem que a biopsicologia do apego e a neuropsicologia do hemisfério direito representam o substrato de três outras capacidades: confiança, empatia e moral.

Anatomia e fisiologia do apego

   Ao nascimento a amígdala já se encontra funcionante. A amígdala direita processa os estímulos olfatórios e media o reconhecimento do cheiro materno assim como o reconhecimento do bebê pela mãe através do olfato.
   Aos dois meses, um período crítico do desenvolvimento do cingulado anterior inicia-se, permitindo ao sistema límbico regular o brincar e as brincadeiras de separação, choro e riso, expressões faciais e a modulação de atividades autonômicas.
   O primeiro ano de vida é também um período crítico da maturação experiência-dependente da ínsula direita (estrutura dos lobos temporais que está envolvida essencialmente nas sensações subjetivas corporais internas) e do córtex parietal direito (região cortical posterior envolvida na representação do eu físico e na habilidade de distinguir nosso self do outro).
   No último quarto do primeiro ano de vida áreas orbitais dos lobos frontais (ventromediais) iniciam um período crítico de crescimento. O córtex orbito-frontal, ápice hierárquico do sistema límbico, age nos níveis mais altos níveis de controle do comportamento, especialmente em relação à emoção. Em estudo recente, mães observando a foto de seus filhos apresentaram máxima ativação de seus córtex orbito-frontais, especialmente do lado direito em estudos de ressonância magnética funcional. Os autores concluem que a região apresenta uma função crucial na representação do apego positivo.
   O hemisfério cerebral direito está criticamente envolvido na regulação do eixo hipotálamo-hipófise adrenal e ativando respostas fisiológicas ao stress. O hipotálamo é lateralizado para a direita e o núcleo hipotalâmico é consideravelmente maior à direita

Tradução livre de trechos do artigo: Attachment, Affect Regulation, and the Developing Right Brain: Linking Developmental Neuroscience to Pediatrics- Pediatrics in Review-Vol.26 No. 6  

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Aquisição da visão

De todos os sentidos existentes no ser humano, a visão é o sentido que se desenvolve por último. As vias nervosas que estabelecem a comunicação do olho com o cérebro do recém-nascido ainda precisam amadurecer já que na fase intra-uterina, o único estímulo óptico que o bebê recebe é a diferenciação entre claro e escuro. Também não existem lágrimas com o choro até aos 1-3 meses.
Nos primeiros dias, a criança vê tudo de modo plano e não tridimensional. Mas, com três semanas de vida, já levanta a mão num gesto de defesa se um objeto se aproxima rapidamente em direção aos seus olhos.
Muitos recém-nascidos podem ter coordenação imperfeita dos movimentos oculares e do alinhamento dos olhos nos primeiros dias ou semanas, devendo a coordenação correta ser alcançada até cerca dos 3 meses. O desvio persistente de um dos olhos requer avaliação por oftalmologia, Cinco em cada 100 crianças nascem estrábicas e 15 em cada 100 precisam de óculos,sendo 50% dos filhos de pais míopes também apresentaram miopia contra 8% das crianças com pais saudáveis.O vídeo abaixo demonstra a aquisição do movimento de perseguição lenta em bebês.


A sacada é um movimento ocular rápido que pode ocorrer involuntariamente ou voluntariamente, com o propósito de redirecionar a fóvea a um alvo específico.O sistema de sacadas não está totalmente desenvolvido até o final do primeiro ano de vida. Bebês até essa idade apresentam sacadas hipométricas (curtas e insuficientes para atingir o objeto-alvo) e podem necessitar várias sacadas secundárias até conseguirem fixar o alvo. Por volta do 7º mês de vida, observa-se uma importante e acentuada progressão para a normometria (100% da distância do objeto-alvo) que se refina até que, por volta de 1 ano de idade, o movimento sacádico já está equiparado ao do adulto.

Um pouco de neuroanatomia...

A via para os movimentos sacádicos se origina no córtex visual (áreas oculomotoras frontais estão envolvidas nas sacadas voluntárias e o córtex parietal nas sacadas reflexas). Projeta-se então para a cápsula interna, dividindo-se em via dorsal e via ventral. O ramo dorsal vai para o colículo superior, e o ramo ventral, para a ponte e o mesencéfalo, os quais contêm os núcleos dos nervos oculomotores e estruturas do olhar conjugado, como a formação reticular paramediana pontina e o fascículo longitudinal medial.
Alterações nos movimentos de perseguição lenta não ocorrem isoladamente. Lesões no córtex e no cerebelo afetam esse tipo de movimento, e tem efeito semelhante no nistagmo optocinético. Em crianças com maturação visual atrasada, não se observa a presença de movimento de perseguição lenta.

Efeito McGurk

Este efeito foi descoberto pelos pesquisadores Harry McGurk e John MacDonald, e foi descrito em seu trabalho humoristicamente intitulado "Hearing Lips and Seeing Voices" [Ouvindo Lábios e Vendo Vozes], publicado em 1976 na Nature. Antes de assistir ao vídeo abaixo, clique em play e ouça apenas o som, sem olhar para a tela. Depois assista a tudo de novo, olhando para a imagem.


   Este ilusão ocorre provavelmente devido ao fato de ba, da e ga serem sons parecidos, e nós integrarmos pistas visuais em nossa percepção dos sons. O efeito McGurk também ocorre com diversas outras sílabas semelhantes.
  Confrontado com os dois estímulos, o som /ba/ e a imagem /ga/, o cérebro faz o melhor que pode na integração dos estímulos e você percebe um /da/ (em outras palavras, ba+ga=da).
  O neurocientista António Damásio mostrou que imagens influenciam o sistema nervoso auditivo de modo muito particular. O pesquisador conseguiu mapear o cérebro de voluntários que assistiam a vídeos de músicos, animais e objetos produzindo sons. Essas imagens eram capazes de ativar um conjunto de neurônios tidos como exclusivamente auditivos, mesmo se o vídeo estivesse sem o áudio.
   Segundo o neurocientista Kaspar Meyer, coautor de Damásio na nova pesquisa, essa é finalmente uma explicação para o incrível efeito McGurk, pois os neurônios responsáveis pelo fenômeno ficam em uma região do córtex que está diretamente ligada ao circuito nervoso que desemboca no ouvido. A ilusão, portanto, é processada no sistema nervoso em nível subconsciente.

Intersubjetividade do recém-nascido

A revista Infant and Child development publicou uma edição especial sobre a intersubjetividade do recém-nascido. Ao todo são 7 artigos. Separei alguns comentários sobre os artigos e o nome dos artigos que achei mais interessante. Quem se interessar pode me mandar um email que envio os artigos na íntegra.

Special Issue: The Intersubjective Newborn-Vol 20, Issue 1- 2011
1-The newborn infant: a missing stage in developmental psychology - Emese Nagy
O que justifica o período neonatal como um período distinto já que dura tão pouco? O artigo comenta rapidamente sobre os métodos de avaliação próprios para o RN como a escala de Brazelton e o método de observação de bebês e apresenta evidências da capacidade de aprendizado do RN. Nagy é uma pesquisadora húngara que tem um dos artigos mais legais que eu já vi e que ela cita nesse texto sobre a capacidade de imitação de bebês com apenas dois dias de vida -"A observação do mecanismo de imitação neonatal resultou na descoberta de uma capacidade iniciativa do recém-nascido, chamada "provocação". Os recém nascidos recomeçam o mesmo gesto de imitação, na tentativa de uma resposta do examinador". A imitação realizada pelos recém-nascidos não é unicamente uma reprodução ou uma repetição dos movimentos do outro, ela tem funções interpessoais além da aquisição de competências.
O artigo segue falando da sinaptogenese e mielinização, passando pelo imprinting. Termina com um painel das pesquisas expostas no suplemento.
2-Direct Gaze May Modulate Face Recognition in Newborns- Londres e Itália
A direção do olhar é uma informação importante para a comunicação entre o adulto e a criança. RN familiarizados com a face de uma pessoa reconhecem mais esta face quando acompanhada por um olhar direto. O artigo comenta sobre a ilusão de Bogart. Segue um exemplo da internet:
bogart.jpg

O menino de azul parece olhar para a direita, enquanto que a imagem ao lado que é na verdade a imagem em negativo da primeira parece olhar mais diretamente. A dica é pensar na íris. Na figura abaixo o escurecimento de um lado da esclera modifica a nossa percepção.

bogart2.jpg

Outro exemplo:

bogart3.jpg


O artigo comprova que o olhar direto facilita o reconhecimento facial tanto de crianças com quatro meses de idade como em RN.
3-Sleep and Infant Learning-Columbia University -USA
Recém-nascidos dormem 16-18 horas por dia.
Estados de consciência (segundo Prechtl):
Estado 1 = olhos fechados, respiração regular, sem movimentos
Estado 2 = olhos fechados, respiração irregular, sem grandes movimentos corporais
Estado 3 = olhos abertos, sem grandes movimentos corporais
Estado 4 = olhos abertos, com movimentos amplos e sem choro
Estado 5 = olhos abertos ou fechados, chorando
Estado 6 = outros estados - descrever (ex. coma)
RN ficam mais tempo em sono ativo - REM no estado 2.

RN com padrão de sono mais maduro apresentam melhor escore na escala Bayley aos seis meses.
O sono influencia a plasticidade sináptica no córtex visual de ratos e tem papel importante na consolidação da memória.
Desde o nascimento o RN tem capacidade de aprender por condicionamento operante e por condicionamento clássico.
ps - A diferença entre o reflexo condicionado e o condicionamento operante é que o primeiro é uma resposta a um estímulo puramente externo; e o segundo, o hábito gerado por uma ação do indivíduo. Para Pavlov, a um estímulo segue-se uma resposta. No comportamento operante (de Skinner), o ambiente é modificado e produz conseqüências que agem de novo sobre ele, alterando a probabilidade de ocorrência futura semelhante.
O condicionamento operante é um mecanismo que premia uma determinada resposta de um indivíduo até ele ficar condicionado a associar a necessidade à ação. É o caso do rato faminto que, numa experiência, percebe que o acionar de uma alavanca levará ao recebimento de comida. Ele tenderá a repetir o movimento cada vez que quiser saciar sua fome.
Neonatos conseguem alterar o seu padrão de sucção para obter uma série de recompensas como o leite materno, uma solução adocicada ou a voz materna. Um exemplo de aprendizado sensorial do RN Sullivan correlacionou a presença de odor cítrico a estimulação tátil. No dia seguinte a esta exposição, os bebês apresentavam uma resposta condicionada de virar a cabeça quando exposto ao odor cítrico. O estudo demostra uma série de habilidades do RN- aprendizagem de associação entre dois estímulos de modalidades sensórias diferentes, o lembrar de tal associação após um período de 24 horas e a resposta ao odor ocorre tanto durante o sono quando acordado.

7-What Is It Like to Be a Person Who Knows Nothing? Defining the Active Intersubjective Mind of a Newborn Human Being- escrito por Trevarthen

A visão do recém-nascido

A visão é o ultimo sentido a terminar seu desenvolvimento e também o mais complexo. Desenvolve-se de uma maneira ordenada, melhorando à medida que bebê consegue colocar sentido no que vê. A acuidade visual inicial é baixa 20/400 já que há uma adaptação gradual a quantidade de informação encontrada no mundo exterior.
Existem 9 princípios que descrevem como as crianças respondem visualmente ao mundo. Cada princípio é um continuum, ou um intervalo de respostas começando com a resposta mais básica ou mínima e atingindo uma resposta mais especializada
  • Consciência →atenção→ entendimento
  • Luz→pessoas→objetos
  • Fixar→mudar o foco→ seguir
  • Perto →longe
  • Periféria→ central
  • Familiar→ não familiar
  • Partes → todo
  • Simples →complexo
  • Grande→ pequenos 
- Um dos fenômenos mais fascinantes da visão é a percepção das cores. A cor não tem existência material. Ela é tão somente uma sensação provocada pela ação da luz. Oliver Sacks descreveu o caso do pintor que perdeu a capacidade de enxergar as cores após um acidente de carro. Se você tem curiosidade de saber como seria ver o mundo em preto e branco é só ler o primeiro capítulo do livro Um antropólogo em Marte.
- A percepção de cor é semelhante ao adulto com 3-4 meses, mas mesmo com uma semana de vda o recém-nascido já consegue distinguir o vermelho desaturado do cinza e com 2m consegue distinguir o azul dessaturado do cinza.
  •      Os RN são capazes de processar informações visuais, lembrando-se do que viram e usar aquela informação. Se mostrarmos a mesma figura para bebês por longos períodos de tempo, eles tendem a diminuir seu tempo de observação, como se estivessem aborrecidos
  •      Foi demonstrado que se for colocada uma máscara no rosto da mãe quando o bebê tem 8 dias, ele perceberá e olhará para ela durante a amamentação como se algo estivesse errado ou diferente. Ele tomará menos leite, não adormece com facilidade e dormirá por menos tempo. Isto sugere que eles reconhecem suas mães e seus rostos.


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Referências

1. Reach Out and Teach Parent Handbook, Chapter 6, pages 180-184, Kay Alicyn Ferrell, Ph.D., 1985, the American Foundation for the Blind.

2. Adams RJ, Courage ML. Human newborn color vision: measurement with chromatic stimuli varying in excitation purity. J Exp Child Psychol. 1998 Jan;68(1):22-34.

Poker face...

   No experimento abaixo, a mãe nega atenção ao bebê por um curto período de tempo. Podemos observar as tentativas da criança de socializar com a mãe. Esta experiência conduzida por Tronick e Brazelton prova que os bebês reconhecem e respondem precocemente à perturbação das condições normais de interação.
   As crianças de 3 a 6 meses diminuem significativamente o número de respostas positivas e a atenção visual enquanto aumentam as respostas negativas durante o período em que a mãe mantém a “still face”.
ps-Não recomendamos a repetição desta experiência em casa.

Nomes em Desenvolvimento

O estudo do desenvolvimento é relativamente uma ciência nova, com muitos assuntos ainda sem solução. Para entender um tema tão vasto, não podemos escolher uma única perspectiva em detrimento das demais. Dentre os principais autores que estudaram o desenvolvimento temos: Stanley Hall, Freud, Jean Piaget, Lev Vygotsky, Luria, Erik Erikson, Melanie Klein, John Bowlby, Albert Bandura, Jerome Brumer, Konrad Lorenz, Donald Winnicott, Henry Wallon, David Ausubel, Skinner, Urie Bonfenbrenner,Gesell, BrazeltoN e Jerome Kagan.
Esses são alguns dos mais conhecidos pesquisadores. Com certeza, estou cometendo injustiças em não incluir outros importantes pesquisadores. Fiquem à vontade para mandarem mais nomes para nossa lista. Aos poucos comentarei cada um deles.

Andadores

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Em uma visita em um abrigo para crianças, no berçário encontrei uma menina de dez meses usando um andador. O lugar é plano e fechado: um grande salão no qual a garotinha conseguia se locomover por todos os cantos com o aparelho. Quando estava me despedindo, fiz meus comentários contra o andador. Porém sai de lá pensativa. A agilidade com que aquela criança conseguiu se locomover em um local tão amplo representa um primeiro passo rumo a acidentes, mas também lhe proporcionava independência e um contato maior com as cuidadoras.
É claro que os andadores não são a solução. Epidemiologicamente está comprovado que aumentam a chance de acidentes, com destaque para o trauma crânio-encefálico. Mas então porque eles não são proibidos? Os Estados estão discutindo o assunto, o Canadá já proibiu. No Brasil, a sociedade de Pediatria já emitiu seu parecer contrário.
Quanto à possibilidade de atraso na aquisição de marcos motores, os estudos não são conclusivos. Temos quatro estudos descrevendo um atraso na aquisição contra um que não detectou diferença. Em todos eles as crianças andaram dentro do intervalo de tempo considerado normal.
Um estudo envolvendo o uso de andadores merece destaque. O trabalho é um bom exemplo de metodologia experimental e aborda a emergência do medo em bebês quando em lugares altos.
Durante muitos anos, acreditou-se que o medo de altura fosse inato ao bebê humano, emergindo de acordo com um programa de maturação por volta da época em que os bebês começam a se locomover, ou a se mover sem ajuda. Joseph Campos e sua equipe discordaram dessa hipótese. Eles acreditavam que o medo de altura dos bebês é resultado da experiência especialmente adquirida quando os bebês engatinham pelo seu ambiente.
Durante muitos anos para testar sua hipótese, Campos e sua equipe inicialmente estudaram um grupo de bebês de seis a oito meses de idade que estavam engatinhando há uma ou duas semanas. Os pesquisadores começaram observando se os bebês conseguiam atravessar um "abismo visual"- uma plataforma transparente que lhes dava a ilusão de uma queda abrupta na elevação.

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Nas primeiras tentativas, todos os bebês engatinharam pelo abismo, sem hesitação. No entanto, nas tentativas subseqüentes, realizadas nas várias semanas seguintes, os bebês se tornaram cada vez mais relutantes em transpor o abismo visual, mesmo sabendo que nada de mau lhes aconteceria. Algo parecia ter sido construído nas mentes dos bebês à medida que ganhavam experiência.

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Mas o que foi construído e que experiência provocou isso? Para confirmar sua hipótese de que o início do medo de altura dos bebês resulta da experiência de se movimentarem sozinhos, Campos e sua equipe conduziram um experimento. Selecionaram 92 bebês que estavam próximos da idade em que se espera que comecem a engatinhar e a mostrar medo de altura. Os bebês foram aleatoriamente designados a um de dois grupos.
Um grupo foi designado como o grupo experimental - o grupo em um experimento cujo ambiente é modificado. Durante vários dias, os bebês desse grupo tiveram mais de 40 horas de experiência se movimentando em andadores, antes de aprenderem a engatinhar. As outras crianças, o grupo-controle não participou de nenhuma experiência especial em locomoção. Se Campos e sua equipe estivessem certos, os bebês dos grupos experimentais deveriam reagir ao abismo visual de maneira diferente dos bebês do grupo-controle porque os bebês do grupo experimental tinham mais experiência em se movimentar sozinhos.
Quarenta horas andando de um lado para o outro em uma sala com um andador pode não parecer muita experiência, mas, aparentemente, fez uma grande diferença na maneira como os bebês do grupo experimental responderam ao abismo visual. Embora as reações tenham variado um pouco, em geral os bebês do grupo experimental demonstraram medo em sua primeira exposição ao abismo visual, enquanto os bebês do grupo-controle não o demonstraram.
Esse experimento demonstrou um forte apoio à hipótese de que o desenvolvimento da capacidade de locomoção desempenha um grande papel no aparecimento do medo de altura.
Seria conveniente a realização de mais pesquisas para determinar outros fatores possíveis que essa pesquisa não aprofundou. Suponhamos, por exemplo, que as crianças se movimentassem em pequenos veículos que lhes permitissem explorar o ambiente sem nenhum movimento da sua parte. Será que ainda assim elas sentiriam medo diante do abismo visual?
Essas dúvidas sobre os resultados das pesquisas são quase inevitáveis. Em geral, é necessário realizar uma série de experimentos para isolar causas específicas porque as complexidades do comportamento humano excedem a capacidade do pesquisador de controlar todos os fatos importantes em um único experimento.O video abaixo, por exemplo, mostra o papel da comunicação não verbal da mãe na decisão do bebê diante do abismo visual.

Enfim, voltando aos andadores uma coisa é certa, enquanto eles existirem seu uso deve ser sempre supervisionado e com tempo limitado para que as crianças possam explorar seu ambiente de maneira diferente.Dizer que o andador torna uma criança mais fácil de cuidar revela preguiça ou falta de disponibilidade. Ao apresentarmos o andador a um bebê perdemos valiosas oportunidades como as da foto abaixo.

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Saiba mais:

1-Parecer da Sociedade de Pediatria

2-American Academy of Pediatrics. Committee on Injury and Poison Prevention. Injuries associated with infant walkers. Pediatrics.2001;108:790-2

“Não há nada mais prático que uma boa teoria”

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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Cronologia

Segundo o Dicionário Aurélio, a infância está definida como um período de crescimento, no ser humano, que vai do nascimento até a puberdade. Na sua origem etimológica, o termo "infância em latim é infans, que significa sem linguagem.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) define "a criança como a pessoa até os 12 anos de idade incompletos". A visão cronológica do desenvolvimento humano proporciona uma referência de estudo separando períodos considerados distintos. Tal divisão é resultado de um contexto histórico cultural, por exemplo, só a partir do século 19 que a adolescência foi considerada uma fase distinta do desenvolvimento humano. Shakespeare na peça "As you like it" descreve as setes idades do homem - uma visão comum na Idade Média:
"O mundo todo é um palco, os homens e as mulheres,
meros artistas, que entram nele e saem.
Muitos papéis cada um tem no seu tempo:
sete atos, sete idades.

Na primeira, no braço da ama grita e baba o infante.
O escolar lamuriento, após, com a mala, de rosto matinal,
como serpente se arrasta para a escola, a contragosto.
O amante vem depois, fornalha acesa,
Celebrando em balada dolorida
as sobrancelhas da mulher amada.
A seguir, estadeia-se o soldado,
cheio de juras feitas sem propósito, com barba de leopardo,
mui zeloso nos pontos de honra.
a questionar sem causa, que a falaz glória,
busca até mesmo na boca dos canhões.

Segue-se o juiz, com o ventre bem forrado de cevados capões,
olhar severo, barba cuidada, impando de sentenças e de casos da prática;
desta arte seu papel representa.

A sexta idade em magras pantalonas tremelica,
óculos no nariz, bolsa de lado,
calças da mocidade bem poupadas,
mundo amplo em demasia para pernas tão mirradas,
a voz viril e forte,
que ao falsete infantil voltou de novo,
chia e sopra ao cantar.

A última cena, remate desta história aventurosa,
é mero olvido, uma segunda infância, falha de vista, dentes, gosto e tudo."
Ainda como referência: a educação infantil compreende de zero a seis anos, exclusive, sendo que as creches estão destinadas as crianças de zero a três anos. O terno toddlers refere-se às crianças de 1 a 3 anos. Para fins didáticos a tabela abaixo descreve uma divisão cronológica adotada no livro de Pediatria Básica -Marcondes, 2002.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Transdisciplinaridade

maos escher.jpgO termo pode ser um exemplo de uma tendência de se dar nomes ao que já se vinha fazendo há muito tempo. Por outro lado, conceitos também visam sintetizar e suscitar reflexões. É assim que transdisciplinaridade é colocada como descrição para a articulação de novas compreensões da realidade entre e para além das disciplinas. Ou seja, trata-se de uma abordagem que passeia por, além e através dos campos disciplinares, em busca do entendimento das complexas teias epistemológicas e práticas que perpassam os fenômenos humanos.

Foi Jean Piaget quem primeiramente utilizou o termo no I seminário Internacional sobre pluri- e interdisciplinaridade, na Universidade de Nice, em 1970. (1) Piaget estimulou a reflexão acerca de uma interação otimizada entre as diversas disciplinas, sem que estas perdessem suas especificidades. Isso implica uma colaboração para uma saber comum, o mais completo possível, sem que necessariamente se crie ou se refira a uma disciplina única. A conseqüência de uma postura metodológica transdisciplinar é a diminuição do aspecto negativo da individualidade e fechamento das disciplinas em campos estanques.

Citando a carta da transdisciplinaridade (2) "a transdisciplinaridade não procura o domínio sobre várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa" e "a transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências".

O objetivo não é meramente adicionar saberes, mas organizá-los e integrá-los.

Referências

1. Piaget J. A epistemiologia das relações interdisciplinares. . In: L'interdisciplinarité - Problèmes d'enseignement et de recherche dans les universités, Nice, 1970 Actas do colóquio, OCDE, Paris, 1972 1970.

2. Morin E. Carta de la Transdisciplinariedad de Edgar Morin. Convento de Arrábida, novembro 1994.

Epigenética

girafa.jpgOs geneticistas começam a reconhecer que talvez tenhamos ignorado com demasiada facilidade um naturalista que antecipou a Epigenética moderna - e que os darwinistas sempre denegriram.

Lamarck defendia que a evolução podia ocorrer dentro de uma geração ou duas. Afirmava que os animais absorviam certas características durante a sua vida devido ao ambiente e às opções. O mais célebre exemplo lamarckiano: as girafas adquiriram o seu longo pescoço porque os seus antepassados recentes o tinham esticado para alcançarem as folhas altas, ricas em nutrientes.

Darwin, pelo contrário, argumentava que a evolução não funciona mediante o fogo do esforço, mas através da seleção fria e imparcial. Pelo pensamento darwinista, as girafas ficaram com o seu longo pescoço num percurso milenar, porque esses genes específicos tinham, muito lentamente, adquirido uma vantagem.

Darwin, 84 anos mais novo do que Lamarck, era o melhor cientista, e ganhou a partida. (imperdível o filme "O desafio de Darwin"). Desde então a evolução lamarckiana passou a ser vista como um disparate científico. Mas a Epigenética obriga, agora, os cientistas a reavaliarem as idéias de Lamarck. Embora não tenham revelado nada tão dramático quanto as girafas de Lamarck, as pesquisas em epigenética sugerem que as características adquiridas podem ser herdadas e que, no fim das contas, Lamarck não estava todo errado.

Feinberg define a epigenética como modificações no genoma que são herdadas durante a divisão celular e que não estão relacionadas com a mudança na seqüência do DNA. A melhor metáfora para o genoma é a do teclado do piano: o oragnismo "toca" à medida que reage a sinais externos. Os genes se mostram excepcionalmente flexíveis e cooperativos, até porque não podem ser transcritos sem a ajuda de outras moléculas.

Existem algumas características que distinguem a epigenética dos mecanismos da genética convencional: a reversibilidade, os efeitos de posicionamento, a habilidade de agir em distâncias não esperadas maiores do que um único gene.

Dentre os mecanismos envolvidos na epigenética,os dois principais são as alterações nas histonas e padrão de metilação do DNA. O mais conhecido é a metilação do DNA. Metilas são um pequeno grupo químico que se liga em determinadas áreas da cadeia do DNA. Elas servem como uma espécie de chave que ativa e desativa os genes. Ao ligar e desligar os genes, as metilas têm um profundo impacto sobre a forma e a função das células e organismos, sem alterar o DNA correspondente. Se o padrão normal das metilas é alterado - por um agente químico, por exemplo, o corticosteróide, ao qual o organismo tenha sido exposto pelo seu comportamento de vida - o novo padrão pode ser passado para as gerações futuras. O resultado, como verificado em experiências com ratos, pode ser dramático e perdurar por gerações, apesar do DNA continuar intacto.

Atualmente, os cientistas já sabem que a falta ou excesso de comida na infância pode alterar os genes ligados ao metabolismo, provocando puberdade precoce, obesidade e diabetes. Sabem também que a vitamina B12 pode ligar os genes associados às funções cerebrais, como a memória, e que uma alimentação rica em soja, vitamina B2 e ácido fólico desliga o gene da obesidade. Além disso, uma dieta rica em vegetais diminui a expressão dos genes ligados ao câncer de próstata no estágio inicial da doença. Uma alimentação rica em ácido fólico, encontrado em grãos integrais e vegetais escuros retarda o envelhecimento e inibe certos tipos de cânceres.




E mais: problemas no apego na infância alteram os genes que controlam a produção dos hormônios do estresse.Recém-nascidos são dotados da capacidade de reagir ao stress logo após o parto - estímulos ameaçadores conseguem estimular o gene CRH (gene do hormônio liberador de corticotrofina). Meaney, 2004 fez descobertas interessantes usando ratas e suas crias. Ele observou que estímulos físicos associados à dedicação materna, como lamber ou amamentar, ativavam o gene CRH no cérebro dos filhotes.

O pesquisador provou que o comportamento solícito da mãe promove a eliminação dos grupos metil que protegem a região promotora do gene anti-stress, permitindo que a seqüência gênica seja transcrita. Cogita-se que essa alteração apresente correlação com transtornos como a depressão já que há muito tempo se sabe que pessoas com predisposição para o humor depressivo o gene CRH tende a ser hiperativo.

Organicistas

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Para os organicistas o desenvolvimento é determinado por forças internas.

Mecanicismo

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Para os mecanicistas o desenvolvimento é determinado por forças externas (ambientais).

Como definir Desenvolvimento?

O primeiro elemento obviamente relacionado a desenvolvimento é a mudança - desenvolvimento envolve o movimento de um estado para o outro. No entanto desenvolvimento não é uma mudança de qualquer tipo. A saciedade após uma refeição claramente envolve mudança, mas ninguém poderia classificar tal mudança como desenvolvimento.
Ao descrevermos mudanças em desenvolvimento fazemos referência às mudanças que ocorrem entre a concepção e morte que são contínuas, sistemáticas, ordenadas, padronizadas e relativamente duráveis. O termo duradouro pode ser visto com ressalvas já que algumas mudanças que são parte do desenvolvimento não terão conseqüências duradouras - servem seu propósito no momento que aparecem, mas podem não deixar um imprinting final.
Rutter e Rutter em 1992 propõem a seguinte definição para desenvolvimento:
"Mudanças sistemáticas, organizadas, individuais que estão claramente associadas com progressões esperadas para a idade e que tem implicações no funcionamento do indivíduo em um momento posterior" .
Nessa definição o termo progressão pode transmitir a idéia de um constante caminhar para frente. De fato, é comum nos referirmos à infância como um período de grandes ganhos, seguida de um período de estabilidade e à fase final da vida como um período de perda de capacidades. Porém muitos aspectos do desenvolvimento não seguem esse modelo de ganho, estabilidade e perda.
As mudanças desenvolvimentais em qualquer idade envolvem ganhos e perdas. As crianças ganham habilidades cognitivas com o passar do tempo, porém perdem auto-estima e tem maior tendência a depressão. Também não devemos associar o envelhecer apenas com um declínio das aquisições.
Do mesmo modo as mudanças nem sempre podem ser classificadas em melhores ou piores - podem apenas serem diferentes; como a criança que antes temia barulhos altos e passa a ter medo de fantasmas ou monstros em baixo da cama. Em suma desenvolvimento envolve ganhos, perdas e mudanças neutras.
Tais modificações podem ser divididas em três grandes domínios: físico, cognitivo e psicossocial. Métodos de avaliação do desenvolvimento apresentam divisões semelhantes. A escala de Bayley realiza a seguinte divisão: mental, psicomotora e comportamental. Já o teste de triagem de Denver a avaliação é feita em quatro áreas: motora grosseira, motora fina-adaptativa, pessoal-social e linguagem.
As mudanças em uma área afetam a outra, por exemplo, o bebê que desenvolve a habilidade de engatinhar tem novas oportunidades de desenvolver sua mente ao se dirigir para os locais que lhe chamam a atenção e pode aumentar sua interação social ao, por exemplo, seguir seus pais de um lado para o outro.
No mundo aproximadamente um terço da população é constituída por crianças com menos de quinze anos de idade que interagem com o meio numa perspectiva dinâmica, de acordo com a sua idade, o seu grau de maturação, os seus fatores biológicos intrínsecos e os estímulos provenientes do ambiente. A figura abaixo demonstra a relação bidirecional das influências:

      Diante de tais considerações segue a definição do livro "Semiologia da criança e do adolescente" da Unifesp:

   "O desenvolvimento pode ser definido como o processo de construção da identidade humana, que resulta da interação entre as influências biológicas, próprias da espécie e do indivíduo, e sua história de vida, contexto cultural e social".

   Esta é uma definição abrangente. Porém definições remetem, em sua essência, a delimitação. Por meio dela, temos a pretensão de conseguir apresentar algo de forma precisa por meio de palavras. Quando o assunto admite múltiplas perspectivas e abordagens, qualquer tentativa de definição enfatiza determinados pontos e desvaloriza outros considerados importantes.

Ponto de consiliência

A palavra consiliência, um termo cunhado por Willian Whewell (1840 - The Philosophy of the Inductive Sciences), é uma palavra-chave para a unificação do saber em todas as suas vertentes. Prefere-se utilizar esta palavra nova do que "coerência" dada sua raridade que lhe preservou a precisão, uma vez que "coerência" tem vários significados possíveis e menos representativos quando comparados ao termo "consiliência".
Whewell foi o primeiro a falar de consiliência, literalmente, um "salto conjunto" do conhecimento, pela ligação de fatos com a teoria baseada em fatos, em todas as disciplinas, para criar uma base comum de explicação com foco no comportamento humano eminentemente baseado no cérebro e na neurologia.
Na abordagem multidisciplinar a um trabalho conjunto e até próximo, mas há pouca permeabilidade das teorias como conseqüência desse contato. A abordagem consiliente propõe um contato modificador, que funcione como um teste de percepção entre as partes e é ilustrada na figura abaixo:

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terça-feira, 14 de junho de 2011

Primeiras palavras

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Do latim involvere origina-se o verbo envolver que etmologicamente significa "rolar sobre". Colocando-se o prefixo negativo des temos desenvolver, que descreve um ato de "desenrolar, permitir a saída ou aparecimento de algo que estava tolhido". Portanto para o desenvolvimento de competências, há de início, a necessidade do envolvimento.

Convidamos você a dividir suas práticas e vivências e a envolver-se com as idéias deste blog e aprofundar-se no estudo do desenvolvimento infantil.

Em tempo, este blog não separa arte e ciência. Quanto maior a ciência, maiores os mistérios. Quando caminhamos pela fronteira do desconhecido, tudo o que nos resta é arte. Falando em arte, seguem os primeiros registros pictóricos datados da era do Gelo, pinturas na caverna de Chauvet-Pont-d'Arc- sudoeste da França. Em breve teremos o filme em 3D do diretor alemão Werner Herzog dessas cavernas descobertas em 1994 com arte rupestre datadas de cerca de 30.000 anos atrás!